Categoria: Atualidades

  • Relatório do grupo 9 do Sínodo: a realidade é mais importante do que ideia

    Relatório do grupo 9 do Sínodo: a realidade é mais importante do que ideia

    Se pudesse definir em uma frase o relatório final do Grupo de Estudo nº 9 constituído durante o processo do Sínodo sobre Sinodalidade seria esta frase da Evangelii Gaudium e que foi vivida de maneira muito clara pelo Papa Francisco ao longo do seu pontificado: “a realidade é mais importante do que a ideia” (cf. EG 231-233).

    Sabendo que se, por um lado, há um longo caminho a percorrer, por outro, devemos celebrar o que já foi percorrido e os êxitos desse caminhar, pois o grupo que tinha a tarefa de analisar questões controversas deu, talvez, o passo mais importante ao reconhecer que se tratava não apenas de questões controversas, mas emergentes. A mudança conceitual é explicada no relatório completo divulgado na terça-feira, 5. “Enquanto a expressão ‘questões controversas’ remete principalmente ao plano teórico e à necessidade de ‘resolver um problema’, a expressão ‘questões emergentes’ destaca o caráter global do compromisso que diz respeito a toda a comunidade eclesial e à integralidade da pessoa”.

    A mudança terminológica já consta atualizada no nome do grupo que passou a ser Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes. A repercussão que o texto ganhou após a publicação se deu, em grande parte, à expectativa que se tinha  da abordagem sobre o acolhimento dos homossexuais crentes.

    Embora este não seja o único tema presente no relatório, é de grande relevância uma vez que o tema ainda enfrenta resistência em muitos espaços eclesiais, seja nas comunidades e na própria hierarquia, mas tais resistências não são incapazes de impedir a participação ativa das pessoas homossexuais na vida da Igreja. Vale ressaltar o corajoso ministério, as pesquisas e acompanhamento de pessoas como os jesuítas James Martin, nos Estados Unidos, e Luis Corrêa, no Brasil, de Cris Serra (sempre presente), Cristina Furtado, tantos homens e tantas mulheres que fazem dessa seara o sentido da sua missão, e ainda de tantos grupos, como os Católicos LGBT+, que são espaços de resistência e afeto.

    O segundo tema emergente abordado pelo relatório é a não violência ativa, apresentada como uma interpelação urgente diante dos conflitos contemporâneos, da escalada armamentista e da crescente lógica da polarização. O documento propõe que a Igreja reconheça, nas práticas de diálogo, reconciliação e construção comunitária, caminhos concretos de discernimento sinodal e testemunho evangélico, em sintonia com os apelos recentes do Papa Leão XIV por uma paz “desarmada e desarmante”.

    Encontrar a verdade a partir de uma realidade cambiante

    A primeira parte do relatório reconhece a mudança de paradigma na missão da Igreja e as dinâmicas do processo sinodal que a promovem. Isso implica a maneira como a Igreja compreende a verdade, o discernimento e a missão. O texto desloca o eixo de uma lógica predominantemente conceitual e dedutiva para uma lógica histórica, relacional e experiencial, na qual a escuta da realidade concreta do Povo de Deus torna-se lugar teológico do agir eclesial.

    É justamente nesse ponto que a segunda parte encontra sua continuidade orgânica: a pastoralidade surge não como consequência secundária, mas como expressão metodológica desse novo horizonte eclesial. Se a verdade cristã não pode ser reduzida à aplicação abstrata de princípios, mas precisa ser discernida no encontro entre o Evangelho e a vida concreta das pessoas e comunidades, então a pastoralidade deixa de ser mera estratégia pastoral para tornar-se critério interpretativo e generativo da própria ação da Igreja.

    Assim, abre-se caminho para para entender que “a ideia desligada da realidade dá origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo raciocínio” (EG 232). Essa mudança para que seja efetiva nas estruturas, nos métodos, nos conceitos, nos processos e nas relações, deve partir do coração. É aqui onde deve operar a primeira e mais importante conversão para fazer ruir modelos rígidos de discernimento e ser uma Igreja capaz de aprender com os processos históricos, culturais e humanos onde o Espírito continua a agir.

    Escutar com atenção, acolher com amor e discernir com ousadia

    Novamente revisitando a atualíssima Evangelli Gaudium encontramos que “é perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, há que postular um terceiro princípio: a realidade é superior à ideia” (cf. EG 231). Partir dos testemunhos, ou seja, das histórias concretas, explicam os relatores, foi a maneira de tentar fazer o exercício de discernimento das mesmas, “identificando os ‘estados nascentes’ nelas reconhecíveis, para oferecer algumas reflexões e, sobretudo, algumas perguntas que possam ajudar ao desenvolvimento concreto das práticas de discernimento sinodal nos diversos contextos eclesiais”.

    Partir da realidade é uma forma de evitar “os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projectos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria” (EG 231).

    Confesso que li, emocionado, o relatório porque abre uma janela de esperança para uma renovação de processos com instrumentos concretos para enfrentar as questões mais difíceis sem fugir da complexidade: ouvir as pessoas envolvidas, ler a realidade, reunir os conhecimentos. Este é um critério profundamente evangélico, essencial à evangelização e indispensável à missão da Igreja (cf. EG 233). A Palavra que já se fez carne (cf. Jo 1,14), continua a se encarnar na vida concreta das mulheres e homens de hoje, nas relações e nos vínculos.

    Especialmente a partir dos testemunhos dos homossexuais presentes no texto, há uma bonita afirmação da comunidade no processo sinodal. Não obstante o sofrimento dessas pessoas em algumas experiências negativas, o ensinamento positivo ressaltado pelo relatório reside na constatação da comunidade cristã como lugar em que “todos nós somos amados“.

    Reconhecer e afirmar a comunidade não só como lugar da acolhida, mas como lugar onde se prova a dimensão curativa do amor é voltar à experiência primeira do cristianismo e desafiar profeticamente às cristãs e cristãos de hoje. Nesta sociedade hiperconectada, marcada pela formação de enxames digitais e pela lógica do desempenho, multiplicam-se as conexões, mas rareiam os vínculos profundos. Vivemos cada vez mais conectados, porém com crescente dificuldade de construir comunhão, pertença e relações verdadeiramente consistentes.

    O que vejo como uma das maiores contribuições do relatório do Grupo 9 é recordar à Igreja que evangelizar não significa defender ideias abstratas, mas tornar visível, na história concreta de cada pessoa, a experiência do encontro com Cristo. O caminho de não oferecer soluções simples e prontas para problemas complexos, propõe um método profundamente evangélico: escutar antes de condenar, discernir antes de simplificar e caminhar junto antes de excluir.

    Em um tempo marcado pela polarização, pelo medo da diferença e pela tentação constante de transformar a fé em trincheira identitária, o relatório recoloca a comunidade cristã diante da sua vocação original: ser espaço de encontro, cuidado, verdade e comunhão. Talvez por isso seu gesto mais profético não esteja apenas nos temas que aborda, mas na forma como escolhe abordá-los: partindo da realidade das pessoas, porque é nela — e não fora dela — que o Espírito continua falando à Igreja.

  • Deus me livre de não ser latino

    Deus me livre de não ser latino

    O mundo todo está falando da final do Super Bowl. E com razão. O intervalo mais caro, mais disputado e com a maior audiência do planeta ultrapassou as fronteiras esportivas da final do campeonato anual da National Football League (NFL) – a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos. Desta vez, porém, o que se viu no maior palco midiático do mundo foi mais do que entretenimento: foi uma afirmação explícita de identidade cultural. O artista porto-riquenho Bad Bunny, o mais escutado em 2025, levou ao centro da cena global uma latinidade sem disfarces — expressa em língua, corpo, estética, ritmo e narrativa.

    A comunicação, como já propunha Jesús Martín-Barbero, não pode ser reduzida aos meios. Ela precisa ser compreendida a partir das mediações culturais: os modos de vida, as identidades, os afetos e as histórias que atravessam as mensagens. O show de Bad Bunny expressa isso com clareza. De algum modo, todos esperavam uma performance à altura do evento. Ainda assim, a postura assumida pelo artista surpreendeu em gênero, número e grau.

    O impacto pode ser medido por diversos indicadores: as reações imediatas nas plataformas digitais; a apresentação mais vista da história do Super Bowl, com estimativas de cerca de 135 milhões de espectadores acompanhando ao vivo apenas nos Estados Unidos; as manchetes nos jornais no dia seguinte (sim, isso ainda existe!); e os números de consumo musical. Segundo a Spotify, o catálogo de Bad Bunny registrou um salto de 210% nas reproduções globais, enquanto no Brasil o crescimento foi ainda mais expressivo: 426% em relação à semana anterior.

    Diante dessas evidências, torna-se cada vez mais clara a intencionalidade daqueles minutos em um evento historicamente marcado pela centralidade cultural anglo-saxã. A presença de Bad Bunny cantando em espanhol reposiciona o imaginário sobre o que é — e sobre o que não é — a América. Ela não se resume aos Estados Unidos. Não são apenas as músicas, as coreografias, as cores ou os discursos: tudo exalava latinidade. Isso acontece porque o artista não fala para os latinos; ele fala desde a latinidade — mesmo sendo oriundo de um território politicamente vinculado aos Estados Unidos, mas culturalmente enraizado no Caribe.

    Essa “onda Bunny” — e o deslocamento simbólico que ela provoca — gerou aplausos, emoção, incômodo e, sobretudo, identificação. É possível que, dentro de alguns dias, esse pico de atenção diminua. No ambiente digital, tudo se dissipa rapidamente. A vida cotidiana é atravessada pela velocidade, pela efemeridade dos conteúdos, pela lógica da atenção, pela fragmentação dos sentidos, pela mediação algorítmica da experiência e pela performatividade constante.

    É nesse contexto que Byung-Chul Han, em No enxame, alerta que essa dinâmica não produz necessariamente comunidade. Com frequência, resulta em enxames marcados pela reatividade e pela ausência de vínculos duradouros — sem jamais chegar a um verdadeiro “nós”. O filósofo sul-coreano descreve ondas de indignação eficazes para mobilizar e concentrar atenção, mas insuficientes para gerar engajamento consistente e duradouro.

    Se a performance e o sucesso de Bad Bunny eram esperados, também era previsível a reação irritada de Donald Trump, que classificou a apresentação como “absolutamente terrível”. Raso em seus argumentos — ao alegar, por exemplo, que o espetáculo não fazia sentido ou que o público não compreendia o que estava sendo cantado —, o presidente estadunidense demonstrou ter se sentido diretamente atingido. A reação diz muito mais sobre ele do que sobre o próprio Bad Bunny.

    O incômodo, afinal, é simbólico. O que parece incomodar não é a música, mas o fato de milhões de pessoas, em rede mundial, vibrarem com uma expressão cultural que não pede licença, não exige tradução e não se ajusta aos moldes hegemônicos. O país mais populoso da América Latina, inclusive, não fala espanhol — e nem por isso deixa de reconhecer e corroborar esse gesto. Muitas vezes sentindo-se estrangeiros em sua própria pátria-continente, ver manifestações tão autênticas de latinidade amplia a capacidade de gerar pertencimento.

    É preciso reconhecer: a cultura não pede autorização para florescer. E vozes historicamente marginalizadas já não aceitam mais sussurrar, tampouco esperar. Por isso, sem hesitação: Deus me livre de não ser latino.