Franciscus. O desejo expresso em seu testamento é a forma como ele deseja ser lembrado: “O túmulo deve ser no chão; simples, sem decoração especial e com uma única inscrição: Franciscus.” Essa escolha contrasta fortemente com nossa cultura, que, para fazer memória e marcar o espaço-tempo, recorre a monumentos, símbolos, placas e que, nas lápides, encontramos o nome completo, com data de nascimento e morte, alguma citação marcante, muitas vezes de origem duvidosa. Francisco escolheu uma única inscrição. E ele tem razão. Todo o resto é acessório. Talvez essa escolha radical nos questione sobre a própria natureza da memória. Ser lembrado por um nome, não seria a forma mais pura de perpetuar uma essência, livre das camadas de interpretação e dos adornos da história?
Esse é o nome que ele escolheu para se apresentar diante de Deus. Não precisará de nenhuma alcunha ou complemento, nem de nenhuma carta de recomendação ou currículo. Não terá que comprovar experiência laboral. Será conhecido e reconhecido por ser Francisco. E nada mais. Despojar-se para permanecer a identidade. Ser reconhecido pela pura ressonância do nome, sem os títulos que o mundo lhe conferiu.
O lugar do seu descanso terreno ficará no chão, pois teve os seus pés fincados no concreto da vida e nos ensinou que, para ser pastor de verdade, não se pode afastar da realidade. É o “pastor com cheiro de ovelhas”. Será simples e sem decoração especial, como ele, que continuou usando o mesmo sapato, o seu anel de bispo e a batina branca, por vezes com as mangas rotas. Não buscar erguer-se sequer na morte para subverter a lógica de ascensão e o desejo de poder.
Li, especialmente nos últimos dias, muitos títulos dados a Francisco: o misericordioso, o de todos, o da paz, o da esperança e tantos outros. Concordo com todos eles. Estas são apenas facetas de um homem poliédrico; por isso, bastará Francisco. Não precisaremos mais distinguir Francisco de Assis e de Roma, como muitas vezes fizemos em alusão ao santo que o inspirou na escolha do nome. Não precisaremos fazer distinção, tampouco justificar, pois ele mostrou no corpo e no coração, nos gestos e nas palavras, que ele é Francisco.
O seu semblante no domingo de Páscoa era o de um pastor mártir, tal como os antigos pastores, que selavam com a própria vida o cuidado do rebanho. As palavras de agradecimento ao seu enfermeiro pessoal foram sinceras e cheias de sentido. A gratidão pela última ida à Praça e seu último passeio no meio do povo eram o que faltava para viver a sua Páscoa. Nesse gesto derradeiro de encontro com o povo a essência de sua missão: um amor concreto e palpável pela humanidade que ele pastoreou. Sua Páscoa pessoal se completa no abraço derradeiro à sua comunidade. Dos braços do povo para os braços do Criador.
No entanto, essa mesma bússola evangélica que guiava seus passos e suas palavras o colocou, por vezes, na mira de olhares desconfiados e condenatórios. Sua obstinação em dar voz e vez aos que a sociedade silenciava – os pobres, os últimos da fila, os descartados pela lógica do mundo, aqueles a quem faltava até mesmo um abraço – foi interpretada por alguns como desvio ou como heresia. Incomodou. A Igreja de portas escancaradas, em saída, acolhendo quem estava nas margens, incomodava quem preferia muros e distinções. Acolher quem estava nas margens mostrando que a margem é o centro.
Estou seguro de que, para muitos, a lembrança mais vívida não resida nos seus discursos, mas em detalhes singelos: o desgaste de seus sapatos pretos a percorrer os caminhos do mundo, a cruz simples que portava como único ornamento e que mostrava a centralidade do Cristo Bom Pastor, um gesto de acolhimento para com um necessitado, um aceno de esperança em meio à multidão, um sorriso que irradiava uma paz profunda. Se assim for, se forem esses fragmentos de sua humanidade e de sua fé a permanecer na memória coletiva, terá sido o suficiente. Nesses pequenos sinais, nessa linguagem silenciosa do amor e da humildade, muitos terão vislumbrado, de forma inequívoca, o seguimento radical e apaixonado de Francisco a Jesus.
Talvez não haja outro Francisco. Nossa lógica mundana, que muitas vezes busca comparações ou continuadores da tarefa, pode ser quebrada com isso. Talvez ainda levemos um tempo para assimilar tudo o que se passou nestes 12 anos de um homem chamado Francisco, que buscou viver com coerência o Evangelho. Eu não tenho dúvidas de que Francisco não descansará nem na eternidade. Continuará o mesmo Francisco, sem o seu corpo mortal, mas incansável, intercedendo pela Igreja a qual tanto amou.
Encontro com o Papa Francisco em 15 de janeiro de 2025, audiência com a Cáritas América Latina e Caribe sobre Salvaguarda.
Texto escrito em 22 de abril de 2025, um dia após a morte do Papa Francisco, e publicado no instagram.
Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).
Um Leão que não ruge. Não por falta de força, mas por escolha. Porque sabe que não é no grito que se afirma a autoridade, nem na imposição que se sustenta a verdade. O rugido pode até ser esperado de um leão, mas não é assim que se constrói a paz. Esta exige outra gramática: firme, sem ser violenta; clara, sem ser estridente. Talvez isso incomode mais a Donald Trump do que as próprias respostas dadas por Papa Leão XIV durante o voo com destino à África, após os ataques proferidos nas redes sociais e reiterados dois dias depois. Não é um episódio isolado. Ao contrário, insere-se no modus operandi de Trump, marcado por uma personalização extrema do poder e por uma dificuldade crescente de reconhecer a legitimidade do outro.
“Eu não tenho medo do governo de Trump”, disse o também estadunidense Robert Prevost. “Continuarei falando com voz forte sobre a mensagem do Evangelho, aquela pela qual a Igreja trabalha. […] Nós não somos políticos, não olhamos para a política externa com a mesma perspectiva. Mas acreditamos na mensagem do Evangelho como construtores de paz”.
Diante das críticas, que não vale a pena repetir, o Papa não responde no mesmo tom. Ao afirmar que não é um ator político – mesmo sendo chefe de Estado –, mas alguém que anuncia o Evangelho, assume a sua autoridade e não se torna refém da lógica da disputa na qual Trump tenta enquadrá-lo. A sua mensagem nasce de um compromisso que antecede a política e está intrinsecamente ligada à missão que lhe foi confiada.
O apelo pela paz é tema da Igreja
Em um artigo publicado poucos dias após a eleição de Prevost como chefe da Igreja Católica – Leão e a profecia da paz– analisei as primeiras mensagens de seu pontificado e um dado chamava atenção: a palavra mais repetida era “paz”.
Ainda se sabia pouco do que seria Leão XIV, desde que a fumaça branca saiu da capela Sistina. Foram analisados, por meio de ferramenta específica para análise de conteúdo, os 11 primeiros discursos, da saudação no balcão da Basílica de São Pedro até o Regina Caeli após a missa de início do ministério petrino, e a palavra paz foi encontrada 37 vezes.
À época, sem a pretensão de esgotar ou encerrar as possibilidades de interpretação; e, agora, sem o intuito de fazer revisão do primeiro ano de eleição, fica claro que a recorrência da paz nos discursos do atual pontífice se dá porque esta é uma preocupação perene da Igreja. A emblemática encíclica Pacem in Terris, de São João XXIII, na década de 60 do século passado, inicia afirmando que “a paz na terra é um anseio profundo de todos os homens de todos os tempos”.
Os pontífices falaram sobre a paz, em maior ou menor escala, também em consonância com o contexto geopolítico de cada tempo. É nesse horizonte que se compreende melhor a ênfase de Leão XIV: ele não inaugura um tema, mas o reinscreve com nova intensidade no cenário atual. Este não é apenas um tema da diplomacia pontifícia e da relação entre nações e povos, mas um tema profundamente evangélico. Se recorremos à Sagrada Escritura, encontramos na boca de Jesus, no Sermão da Montanha, uma das formulações mais densas sobre a paz: “bem-aventurados os que promovem a paz, pois eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).
Desde sua primeira aparição pública, Papa Leão XIV revelou uma profunda preocupação com os rumos do mundo e o desejo de ser um artesão da paz, não apenas com palavras, mas com atitudes concretas. Nesse sentido, sua insistência no tema não se explica apenas pelo agravamento recente dos conflitos entre nações, mas por algo mais profundo: falar da paz não é apenas uma reação ao contexto, mas um elemento constitutivo de sua missão como pontífice e da própria Igreja.
Na primeira bênção Urbi et Orbi, após sua aparição na Basílica de São Pedro, definiu a paz cristã como uma “paz desarmada e desarmante“, que nasce do amor de Deus e transforma corações, construindo pontes e não muros. Ao falar aos participantes do Jubileu das Igrejas Orientais, em 14 de maio de 2025, afirmou com clareza o compromisso pessoal: “Farei todos os esforços para que esta paz se propague”.
Um dado particularmente significativo e incomum antecede a própria eleição de Papa Leão XIV e ajuda a iluminar o horizonte no qual seu pontificado se inscreve. Dois dias antes do início do Conclave, os cardeais reunidos em Roma para as Congregações Gerais tornaram público um apelo contundente pela paz, diante da constatação “que não se registraram avanços para promover os processos de paz na Ucrânia, no Oriente Médio e em tantas outras partes do mundo”, denunciando, inclusive, a intensificação dos ataques contra a população civil. Diante desse cenário, pediam um cessar-fogo imediato e permanente, bem como a abertura de negociações “sem precondições e sem mais demora”, ecoando o clamor das populações atingidas. Ao mesmo tempo, convocavam todos os fiéis a intensificar a oração por uma paz justa e duradoura.
Não se trata de um detalhe periférico: esse apelo do Colégio Cardinalício antecipa, de modo programático, a centralidade que a paz assumirá no pontificado de Leão XIV e que esta também seria uma das características essenciais desejadas para aquele que seria escolhido como o novo sucessor de Pedro.
Segundo publicado pelos meios de comunicação do Vaticano, “com particular ênfase, refletiu-se sobre a missão do novo Papa como um ‘Pontifex’ — literalmente, um construtor de pontes — que seja também pastor, mestre de humanidade e rosto de uma Igreja samaritana. Diante de um cenário mundial marcado por guerras, polarizações e violências, emergiu o apelo por um Papa da misericórdia, da escuta sinodal e da esperança”.
Seu discurso aos diplomatas, em 16 de maio, reforça essa orientação ao afirmar que a paz é um dom ativo, que se constrói no coração e se expressa em atitudes e estruturas justas, sendo inseparável do trabalho interior de conversão e da prática da justiça.
Construtor de pontes
O clamor constante pelo fim dos conflitos e o apelo por um desarmamento global passam pelo diálogo – palavra mencionada 21 vezes e a segunda com maior recorrência nos seus primeiros discursos –, pela construção de pontes, pela escuta dos pobres e pela superação das divisões políticas, culturais e religiosas.
A busca pela paz e pelo diálogo social, tarefa tão urgente e fundamental em tempos de polarização e conflito, se dá também por meio de uma comunicação responsável. Na audiência aos comunicadores, realizada em 12 de maio, Leão XIV pediu que se “desarme a comunicação de todos os preconceitos, rancores, fanatismos e ódios“, referindo-se à mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, reiterando a urgência de uma linguagem que promova a escuta, a empatia e o respeito mútuo. Segundo o Papa, “uma comunicação desarmada e desarmante” é capaz de compartilhar uma visão diferente do mundo e favorecer a dignidade humana.
A paz, para Leão XIV, conforme podemos inferir a partir de seus primeiros discursos, não é apenas um conceito político ou diplomático, mas uma chave para a ação pastoral, um critério de discernimento e um caminho para o seguimento de Jesus. Para isso, a Igreja deve ser servidora da reconciliação, mediadora de conflitos, semeadora de esperança e cada vez mais comprometida com a justiça, a verdade, o perdão e o amor fraterno, como único caminho para que a paz, finalmente, floresça.
Seria exaustivo, num texto breve, fazer uma análise em profundidade de todas as recorrências sobre a paz e diálogo no primeiro ano de pontificado de Leão XIV. Na Páscoa de 2026, a sua primeira com pontífice, Leão XIV não apenas reiterou o apelo pelo fim das guerras, mas convocou toda a Igreja para um gesto concreto: uma vigília de oração pela paz, realizada no dia 11 de abril, na Basílica de São Pedro. Na reflexão que acompanhou o Rosário, a palavra “paz” atravessou toda a sua fala, seja na retomada de citações de seus predecessores ou na convocação para que a paz vá ganhando espaço, “palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura, como a tecelagem no tear, que avança movimento após movimento”.
Os discursos mais recentes, em sua viagem apostólica ao continente africano, continuam reforçando a preocupação com estes dois temas. Na visita ao memorial do mártir Maqam Echahid, em Argel, afirmou que “o futuro pertence aos homens e às mulheres de paz”. Durante o encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, se colocou em atitude de encontro com o povo argelino usando as seguintes expressões: “venho até vós como peregrino da paz”, “venho até vós como testemunha da paz e esperança”.
Em discurso improvisado na Grande Mesquita de Argel, mencionou a palavra paz por quatro vezes, evocando seu pai espiritual e também argelino, Santo Agostinho, que, através da busca da verdade e da busca de Deus, ensinou a reconhecer a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz. Outra vez referindo-se ao doutor da Igreja, diz: “a sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz”.
Ao sair da Argélia com destino aos Camarões, ressaltou a “oportunidade maravilhosa para continuar a construir pontes e a promover o diálogo”. Já no país, durante encontro com as autoridades, sociedade civil e corpo diplomático, outra vez, paz (17 vezes) e diálogo (5 vezes) ditam o ritmo do seu discurso. Retomando os dois adjetivos que atribuiu desde os seus primeiros momentos como pontífice, definiu “uma paz que seja desarmada, ou seja, não fundada no medo, na ameaça ou nas armas; e desarmante, porque capaz de resolver os conflitos, abrir os corações e gerar confiança, empatia e esperança”.
De fato, a paz não nasce do silêncio imposto, nem dos gritos e ameaças. Nasce da capacidade constante de dialogar, ou seja, de abrir-se ao outro de maneira desarmada e atenta, como caminho indispensável a ser trilhado como humanidade. Não brota da ausência de conflito, mas da coragem de atravessá-lo sem destruir o outro.
O diálogo é o gesto de quem desarma o próprio coração antes de querer desarmar o mundo. Não existe paz sem diálogo porque também não existe convivência sem acolher o outro como outro. E, num tempo em que tantos preferem gritar para vencer, Leão prefere não rugir. E talvez, justamente por isso, seja o seu ato mais revolucionário.
Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).
Na Semana Santa, a crise estética do cristianismo fica ainda mais evidente. Uma certa ideia de beleza, moldada por referências setecentistas e camufladas de tradição, acaba por ofuscar a centralidade do mistério: prende o olhar, mas não alcança o coração. Multiplicam-se formas, excessos de ornamentos e encenações que impressionam, mas que, muitas vezes, esvaziam a experiência do essencial.
Há um desejo insistente de retorno. Mas retornar para onde? Ou até onde se consegue ir nessa volta estéril? Não se volta à fonte, à origem viva do acontecimento pascal. Retorna-se apenas até um ponto intermediário da história — um lugar já marcado pelo triunfalismo, pela estetização do sagrado e pela perda de sua força provocadora. Mais uma vez, o mistério vai sendo transformado em espetáculo e a fé em contemplação cada vez mais distante, incapaz de tocar a vida concreta.
No final das contas, trata-se de uma estética mais palaciana que evangélica — um rococó que nos afasta daquela beleza original de Belém, da mesa da Ceia e da crueza do Calvário. A beleza que só é percebida quando se lê estes episódios com as lentes do Evangelho. Seduzidos por uma lógica consumista e exibicionista, romantiza-se tudo – do jumento à ressurreição. De fato, Byung-Chul Han, em Falando sobre Deus (2025), reconhece que falta à beleza “toda consagração, toda espiritualidade” (p. 101). Isso se dá, segundo o autor, porque ela é desconsagrada como objeto de consumo, o que a priva de toda transcendência e da possibilidade de profundidade.
Nesse contexto, de uma sociedade hipermidiatizada e pouco afeita à escuta, a estética forma mais do que o discurso. O like é a palavra de ordem e, como a serpente do Éden (cf. Gn 3, 1-15), no excesso das imagens está a sedução da nossa atenção. No contexto da cultura digital, essa força se intensifica — a imagem ganha centralidade, circula, se impõe, se torna critério de verdade e de valor.
Quando a estética se alinha à lógica do poder, ainda que de modo sutil, ela comunica um cristianismo distante do Evangelho — mais próximo do palácio do que da manjedoura, mais próximo da encenação do que da Encarnação.
Na mesma obra de Han, o filósofo afirma que a atual crise da religião tem, em uma de suas razões estruturais, o declínio da atenção. Evocando Simone Weil, atribui que a humanidade está mais preocupada em comer e, por isso, perde a capacidade de contemplar. O comer reflete o imediatismo, o consumo, os estímulos, os vícios… está no campo do visual, daquilo que atrai os nossos olhos, o estético. Daí que “a atual crise da atenção está ligada ao fato de que queremos apenas consumir tudo, devorar tudo, em vez de olhar. […] A alma que apenas come sem olhar perde a capacidade contemplativa” (p. 12-13).
Neste tempo de digitalização e saturação imagética – uma verdadeira iconorreia – passamos a ver o mundo através das telas, fazemos imagens em sequência e muitas que nunca vamos compartilhar. Se visitarmos as galerias de imagens do celular, talvez não lembremos nem a décima parte das fotos que tiramos, simplesmente pelo fato de não perder nenhum clique. É aquela sanha de que “tudo é imediatamente acessível, alcançável, calculável e consumível” (p. 16). E a religião, segundo expressa Han, “pressupõe uma atenção voltada para as coisas que se recusam a se tornar disponíveis, ser consumidas, ‘comidas’” (p. 15).
Não precisamos rejeitar a beleza, mas libertá-la deste verniz que lhe impuseram. Nesta beleza pensada mais para os cliques, para a performance, que para si própria, fugimos daquilo que nos aproxima do belo, “um meio sem fim” (p. 108). Afinal, nas coisas pensadas mais para as telas do que para uma possibilidade real de encontro, desvela-se mais o humano, numa atitude vaidosa e narcísica. “A tela digital é tudo menos a vidraça transparente através da qual flui a luz de Deus” (p. 116). É preciso reconduzir a beleza à sua função mais profunda — não a de encantar os olhos, mas a de abrir caminhos para o encontro com o essencial.
Para sair dessa crise, é preciso devolver à Palavra — proclamada, refletida, cantada — a nudez da sua verdade, que diz o essencial sem precisar de penduricalhos. É preciso recuperar aquilo que roubaram dos rituais: a sua capacidade de, mesmo na sucessão dos gestos e palavras, deixar irromper o novo. Han, em O desaparecimento dos rituais (2021), poeticamente afirma que “pela sua mesmidade, sua repetição, estabilizam a vida” (p. 12). E é neste frenesi de produzir, consumir, aparecer, afasta-se a possibilidade de permanências. As coisas que são criadas, pensadas, produzidas e celebradas para serem consumidas sucumbem a esta lógica de uma estética cada vez mais cooptada pelo clique, pelo econômico e pelo performático.
Tais reflexos da crise estética e da crise dos rituais desencadeiam crises de comunidade. Segundo Han, “rituais criam uma comunidade de ressonância capaz de um acorde, de um ritmo comum. […] Sem ressonância, a gente ecoa a si mesmo e isola para si” (p. 23). As câmaras de eco inflam o ego de quem é visto, mas não chegam a construir comunidade. E cristianismo sem comunidade e rituais sem ressonância geram espectadores fascinados, mas não cristãos verdadeiramente transformados pelo que se celebra.
Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).
O mundo todo está falando da final do Super Bowl. E com razão. O intervalo mais caro, mais disputado e com a maior audiência do planeta ultrapassou as fronteiras esportivas da final do campeonato anual da National Football League (NFL) – a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos. Desta vez, porém, o que se viu no maior palco midiático do mundo foi mais do que entretenimento: foi uma afirmação explícita de identidade cultural. O artista porto-riquenho Bad Bunny, o mais escutado em 2025, levou ao centro da cena global uma latinidade sem disfarces — expressa em língua, corpo, estética, ritmo e narrativa.
A comunicação, como já propunha Jesús Martín-Barbero, não pode ser reduzida aos meios. Ela precisa ser compreendida a partir das mediações culturais: os modos de vida, as identidades, os afetos e as histórias que atravessam as mensagens. O show de Bad Bunny expressa isso com clareza. De algum modo, todos esperavam uma performance à altura do evento. Ainda assim, a postura assumida pelo artista surpreendeu em gênero, número e grau.
O impacto pode ser medido por diversos indicadores: as reações imediatas nas plataformas digitais; a apresentação mais vista da história do Super Bowl, com estimativas de cerca de 135 milhões de espectadores acompanhando ao vivo apenas nos Estados Unidos; as manchetes nos jornais no dia seguinte (sim, isso ainda existe!); e os números de consumo musical. Segundo a Spotify, o catálogo de Bad Bunny registrou um salto de 210% nas reproduções globais, enquanto no Brasil o crescimento foi ainda mais expressivo: 426% em relação à semana anterior.
Diante dessas evidências, torna-se cada vez mais clara a intencionalidade daqueles minutos em um evento historicamente marcado pela centralidade cultural anglo-saxã. A presença de Bad Bunny cantando em espanhol reposiciona o imaginário sobre o que é — e sobre o que não é — a América. Ela não se resume aos Estados Unidos. Não são apenas as músicas, as coreografias, as cores ou os discursos: tudo exalava latinidade. Isso acontece porque o artista não fala para os latinos; ele fala desde a latinidade — mesmo sendo oriundo de um território politicamente vinculado aos Estados Unidos, mas culturalmente enraizado no Caribe.
Essa “onda Bunny” — e o deslocamento simbólico que ela provoca — gerou aplausos, emoção, incômodo e, sobretudo, identificação. É possível que, dentro de alguns dias, esse pico de atenção diminua. No ambiente digital, tudo se dissipa rapidamente. A vida cotidiana é atravessada pela velocidade, pela efemeridade dos conteúdos, pela lógica da atenção, pela fragmentação dos sentidos, pela mediação algorítmica da experiência e pela performatividade constante.
É nesse contexto que Byung-Chul Han, em No enxame, alerta que essa dinâmica não produz necessariamente comunidade. Com frequência, resulta em enxames marcados pela reatividade e pela ausência de vínculos duradouros — sem jamais chegar a um verdadeiro “nós”. O filósofo sul-coreano descreve ondas de indignação eficazes para mobilizar e concentrar atenção, mas insuficientes para gerar engajamento consistente e duradouro.
Se a performance e o sucesso de Bad Bunny eram esperados, também era previsível a reação irritada de Donald Trump, que classificou a apresentação como “absolutamente terrível”. Raso em seus argumentos — ao alegar, por exemplo, que o espetáculo não fazia sentido ou que o público não compreendia o que estava sendo cantado —, o presidente estadunidense demonstrou ter se sentido diretamente atingido. A reação diz muito mais sobre ele do que sobre o próprio Bad Bunny.
O incômodo, afinal, é simbólico. O que parece incomodar não é a música, mas o fato de milhões de pessoas, em rede mundial, vibrarem com uma expressão cultural que não pede licença, não exige tradução e não se ajusta aos moldes hegemônicos. O país mais populoso da América Latina, inclusive, não fala espanhol — e nem por isso deixa de reconhecer e corroborar esse gesto. Muitas vezes sentindo-se estrangeiros em sua própria pátria-continente, ver manifestações tão autênticas de latinidade amplia a capacidade de gerar pertencimento.
É preciso reconhecer: a cultura não pede autorização para florescer. E vozes historicamente marginalizadas já não aceitam mais sussurrar, tampouco esperar. Por isso, sem hesitação: Deus me livre de não ser latino.
Marcus Tullius
Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).
Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).