Um Leão que não ruge. Não por falta de força, mas por escolha. Porque sabe que não é no grito que se afirma a autoridade, nem na imposição que se sustenta a verdade. O rugido pode até ser esperado de um leão, mas não é assim que se constrói a paz. Esta exige outra gramática: firme, sem ser violenta; clara, sem ser estridente. Talvez isso incomode mais a Donald Trump do que as próprias respostas dadas por Papa Leão XIV durante o voo com destino à África, após os ataques proferidos nas redes sociais e reiterados dois dias depois. Não é um episódio isolado. Ao contrário, insere-se no modus operandi de Trump, marcado por uma personalização extrema do poder e por uma dificuldade crescente de reconhecer a legitimidade do outro.
“Eu não tenho medo do governo de Trump”, disse o também estadunidense Robert Prevost. “Continuarei falando com voz forte sobre a mensagem do Evangelho, aquela pela qual a Igreja trabalha. […] Nós não somos políticos, não olhamos para a política externa com a mesma perspectiva. Mas acreditamos na mensagem do Evangelho como construtores de paz”.
Diante das críticas, que não vale a pena repetir, o Papa não responde no mesmo tom. Ao afirmar que não é um ator político – mesmo sendo chefe de Estado –, mas alguém que anuncia o Evangelho, assume a sua autoridade e não se torna refém da lógica da disputa na qual Trump tenta enquadrá-lo. A sua mensagem nasce de um compromisso que antecede a política e está intrinsecamente ligada à missão que lhe foi confiada.
O apelo pela paz é tema da Igreja
Em um artigo publicado poucos dias após a eleição de Prevost como chefe da Igreja Católica – Leão e a profecia da paz – analisei as primeiras mensagens de seu pontificado e um dado chamava atenção: a palavra mais repetida era “paz”.
Ainda se sabia pouco do que seria Leão XIV, desde que a fumaça branca saiu da capela Sistina. Foram analisados, por meio de ferramenta específica para análise de conteúdo, os 11 primeiros discursos, da saudação no balcão da Basílica de São Pedro até o Regina Caeli após a missa de início do ministério petrino, e a palavra paz foi encontrada 37 vezes.
À época, sem a pretensão de esgotar ou encerrar as possibilidades de interpretação; e, agora, sem o intuito de fazer revisão do primeiro ano de eleição, fica claro que a recorrência da paz nos discursos do atual pontífice se dá porque esta é uma preocupação perene da Igreja. A emblemática encíclica Pacem in Terris, de São João XXIII, na década de 60 do século passado, inicia afirmando que “a paz na terra é um anseio profundo de todos os homens de todos os tempos”.
Os pontífices falaram sobre a paz, em maior ou menor escala, também em consonância com o contexto geopolítico de cada tempo. É nesse horizonte que se compreende melhor a ênfase de Leão XIV: ele não inaugura um tema, mas o reinscreve com nova intensidade no cenário atual. Este não é apenas um tema da diplomacia pontifícia e da relação entre nações e povos, mas um tema profundamente evangélico. Se recorremos à Sagrada Escritura, encontramos na boca de Jesus, no Sermão da Montanha, uma das formulações mais densas sobre a paz: “bem-aventurados os que promovem a paz, pois eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).
Desde sua primeira aparição pública, Papa Leão XIV revelou uma profunda preocupação com os rumos do mundo e o desejo de ser um artesão da paz, não apenas com palavras, mas com atitudes concretas. Nesse sentido, sua insistência no tema não se explica apenas pelo agravamento recente dos conflitos entre nações, mas por algo mais profundo: falar da paz não é apenas uma reação ao contexto, mas um elemento constitutivo de sua missão como pontífice e da própria Igreja.
Na primeira bênção Urbi et Orbi, após sua aparição na Basílica de São Pedro, definiu a paz cristã como uma “paz desarmada e desarmante“, que nasce do amor de Deus e transforma corações, construindo pontes e não muros. Ao falar aos participantes do Jubileu das Igrejas Orientais, em 14 de maio de 2025, afirmou com clareza o compromisso pessoal: “Farei todos os esforços para que esta paz se propague”.

Um pontífice eleito para anunciar a paz
Um dado particularmente significativo e incomum antecede a própria eleição de Papa Leão XIV e ajuda a iluminar o horizonte no qual seu pontificado se inscreve. Dois dias antes do início do Conclave, os cardeais reunidos em Roma para as Congregações Gerais tornaram público um apelo contundente pela paz, diante da constatação “que não se registraram avanços para promover os processos de paz na Ucrânia, no Oriente Médio e em tantas outras partes do mundo”, denunciando, inclusive, a intensificação dos ataques contra a população civil. Diante desse cenário, pediam um cessar-fogo imediato e permanente, bem como a abertura de negociações “sem precondições e sem mais demora”, ecoando o clamor das populações atingidas. Ao mesmo tempo, convocavam todos os fiéis a intensificar a oração por uma paz justa e duradoura.
Não se trata de um detalhe periférico: esse apelo do Colégio Cardinalício antecipa, de modo programático, a centralidade que a paz assumirá no pontificado de Leão XIV e que esta também seria uma das características essenciais desejadas para aquele que seria escolhido como o novo sucessor de Pedro.
Segundo publicado pelos meios de comunicação do Vaticano, “com particular ênfase, refletiu-se sobre a missão do novo Papa como um ‘Pontifex’ — literalmente, um construtor de pontes — que seja também pastor, mestre de humanidade e rosto de uma Igreja samaritana. Diante de um cenário mundial marcado por guerras, polarizações e violências, emergiu o apelo por um Papa da misericórdia, da escuta sinodal e da esperança”.
Seu discurso aos diplomatas, em 16 de maio, reforça essa orientação ao afirmar que a paz é um dom ativo, que se constrói no coração e se expressa em atitudes e estruturas justas, sendo inseparável do trabalho interior de conversão e da prática da justiça.
Construtor de pontes
O clamor constante pelo fim dos conflitos e o apelo por um desarmamento global passam pelo diálogo – palavra mencionada 21 vezes e a segunda com maior recorrência nos seus primeiros discursos –, pela construção de pontes, pela escuta dos pobres e pela superação das divisões políticas, culturais e religiosas.
A busca pela paz e pelo diálogo social, tarefa tão urgente e fundamental em tempos de polarização e conflito, se dá também por meio de uma comunicação responsável. Na audiência aos comunicadores, realizada em 12 de maio, Leão XIV pediu que se “desarme a comunicação de todos os preconceitos, rancores, fanatismos e ódios“, referindo-se à mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, reiterando a urgência de uma linguagem que promova a escuta, a empatia e o respeito mútuo. Segundo o Papa, “uma comunicação desarmada e desarmante” é capaz de compartilhar uma visão diferente do mundo e favorecer a dignidade humana.
A paz, para Leão XIV, conforme podemos inferir a partir de seus primeiros discursos, não é apenas um conceito político ou diplomático, mas uma chave para a ação pastoral, um critério de discernimento e um caminho para o seguimento de Jesus. Para isso, a Igreja deve ser servidora da reconciliação, mediadora de conflitos, semeadora de esperança e cada vez mais comprometida com a justiça, a verdade, o perdão e o amor fraterno, como único caminho para que a paz, finalmente, floresça.
Seria exaustivo, num texto breve, fazer uma análise em profundidade de todas as recorrências sobre a paz e diálogo no primeiro ano de pontificado de Leão XIV. Na Páscoa de 2026, a sua primeira com pontífice, Leão XIV não apenas reiterou o apelo pelo fim das guerras, mas convocou toda a Igreja para um gesto concreto: uma vigília de oração pela paz, realizada no dia 11 de abril, na Basílica de São Pedro. Na reflexão que acompanhou o Rosário, a palavra “paz” atravessou toda a sua fala, seja na retomada de citações de seus predecessores ou na convocação para que a paz vá ganhando espaço, “palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura, como a tecelagem no tear, que avança movimento após movimento”.
Os discursos mais recentes, em sua viagem apostólica ao continente africano, continuam reforçando a preocupação com estes dois temas. Na visita ao memorial do mártir Maqam Echahid, em Argel, afirmou que “o futuro pertence aos homens e às mulheres de paz”. Durante o encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, se colocou em atitude de encontro com o povo argelino usando as seguintes expressões: “venho até vós como peregrino da paz”, “venho até vós como testemunha da paz e esperança”.
Em discurso improvisado na Grande Mesquita de Argel, mencionou a palavra paz por quatro vezes, evocando seu pai espiritual e também argelino, Santo Agostinho, que, através da busca da verdade e da busca de Deus, ensinou a reconhecer a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz. Outra vez referindo-se ao doutor da Igreja, diz: “a sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz”.
Ao sair da Argélia com destino aos Camarões, ressaltou a “oportunidade maravilhosa para continuar a construir pontes e a promover o diálogo”. Já no país, durante encontro com as autoridades, sociedade civil e corpo diplomático, outra vez, paz (17 vezes) e diálogo (5 vezes) ditam o ritmo do seu discurso. Retomando os dois adjetivos que atribuiu desde os seus primeiros momentos como pontífice, definiu “uma paz que seja desarmada, ou seja, não fundada no medo, na ameaça ou nas armas; e desarmante, porque capaz de resolver os conflitos, abrir os corações e gerar confiança, empatia e esperança”.
De fato, a paz não nasce do silêncio imposto, nem dos gritos e ameaças. Nasce da capacidade constante de dialogar, ou seja, de abrir-se ao outro de maneira desarmada e atenta, como caminho indispensável a ser trilhado como humanidade. Não brota da ausência de conflito, mas da coragem de atravessá-lo sem destruir o outro.
O diálogo é o gesto de quem desarma o próprio coração antes de querer desarmar o mundo. Não existe paz sem diálogo porque também não existe convivência sem acolher o outro como outro. E, num tempo em que tantos preferem gritar para vencer, Leão prefere não rugir. E talvez, justamente por isso, seja o seu ato mais revolucionário.
Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).

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